À segunda vista

“Você acredita em amor à primeira vista?”
A gente cresce escutando essa pergunta.
Às vezes, muda de opinião durante a vida.
Diz “à primeira vista, só paixão”.
Em qualquer outro momento, acredita na força do primeiro contato,
do primeiro olhar de todos.

Há alguns anos, fui a uma festa
– eu, que nunca gostei muito delas,
e encontrei uma pessoa que parecia já me conhecer.
Sabe quando você conhece alguém tão parecido
que o maior passatempo se torna descobrir mais e mais coisas em comum?

Meus amigos não existiam mais.
A gente ficou de pé, no meio do salão,
olho no olho,
assuntos intermináveis.

Precisei ir embora correndo, mas eu não tinha dito o meu nome.
E não trocamos telefone nem e-mail.
Eu pus os pés em casa, coração acelerado e nervoso:
fui dormir com alguém em mente,
alguém que eu nem ao menos sabia como se chamava.
Que eu não sabia se veria novamente.

Gostaria de fugir daquela conversa de que só amamos aqueles
de quem conhecemos os defeitos.
Mas nada mais verdadeiro.
Amor
só vem de convivência.
Rotina, cumplicidade provada de pouquinho em pouquinho no dia a dia.

O que eu senti naquela noite,
o que me fez ir dormir inquieta,
nada disso era amor e nem teria como ser.
Era empolgação pela afinidade.
Hoje, eu sei que centenas de pessoas pensam como eu de alguma forma.
Mas não naquela época.
Foi surpreendente perceber que minhas opiniões
podiam ser iguais às de outra pessoa.

O que me fez ficar pensando nisso durante dias
não era amor.
Era encanto.

Então não, eu não acredito em amor à primeira vista.
Mas em sentimentos e em olhares, eu acredito.
Se tira o sono e o sossego,
se descobrir o outro passa a ser o que há de mais interessante,
e se isso não acontece por somente uma vez,
mas na segunda, na terceira, e na décima,
aí sim a gente tá falando de amor.

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