A saudade de quem um dia fomos

Quando completei dez anos, eu ainda tinha tempo — e paciência — para me dedicar quase que integralmente à minha solitária rotina de jovem gamer. E a minha mãe era minha companheira — foi com ela que comprei a maioria dos títulos que mais me prenderam em frente à televisão.

Nada se comparava àquela sensação de ter um novo jogo em mãos. Eu voltava para casa segurando cada CD como um tesouro frágil de valor incalculável. Chegava em casa e já ligava a TV sem ao menos tirar os sapatos, tomada por uma ansiedade excitante. Descobria a jogabilidade, os personagens, tirava minha primeira impressão, até chegar ao último nível e então ser presenteada novamente.

Depois cresci, e o número de responsabilidades também. Vendi meu videogame e percebi que, aos poucos, havia adquirido novas prioridades. E por muitas vezes tentei reviver minha época de jogos eletrônicos.

Quando o acesso a tudo isso se tornou mais fácil graças à internet — como meu “eu” de dez anos tanto sonhou que pudesse ser —, eu já não conseguia passar horas vidrada em uma tela como antigamente. Queria sempre levantar, fazer algo que talvez julgasse mais produtivo, escrever, conversar com amigos…

E me perguntava, quase nostálgica: “pra onde foi todo aquele encanto?…”.

Depois entendi melhor: na verdade, eu sinto falta é daquela pureza de criança que tinha seu mundo colorido pelo êxtase de uma pequena novidade.

E da aparentemente simples experiência com jogos de videogame consegui tirar uma lição no mínimo interessante: quantas vezes será que confundimos sentir falta de alguém com a saudade das nossas próprias sensações? E tornamos a repetir: “Mas eu tenho tanta saudade dela…”, “Como será que vou acordar sem ele?…”.

Sabe, eu acho, sim, que a saudade seja legítima. Mas também concordo que nem sempre ela é direcionada a outra pessoa! Às vezes, isso é mais sobre nós mesmos.

Eu não acho que possa afirmar que sinto falta de todos que já passaram por mim. Na verdade, eu tenho saudade é de quem eu fui, daquela que eu era ao lado de cada um. Como uma criança que cresceu e já não vê mais a mesma graça em videogames, mas que gostaria muito de trazer para hoje aquele mesmo encanto puro e singelo da sensação de um novo jogo.

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