O que te falta pra ser feliz

Para ouvir enquanto lê:

Há alguns anos eu estava em casa, jogada no sofá, olhando uma entrevista na televisão com Miguel Falabella em que perguntaram: “Você é feliz?”. Aquilo chamou minha atenção; e ele respondeu algo do tipo: “Não tenho como responder, porque acho que a vida não é uma coisa só. Você tá feliz agora, e daqui a dez minutos não está mais”.

Como assim, pensei, o cara é reconhecido, tem dinheiro, saúde, como não pode simplesmente se dizer feliz de uma vez?

 

Naquela época, felicidade pra mim seria aprender a tocar um instrumento, terminar o Ensino Fundamental.

Quando eu completei 15, entrei no meu 1º ano e já sabia dezenas de acordes no violão. Felicidade, naquele tempo, eu alcançaria quando começasse uma banda, quando concluísse de vez o colegial, dizia a mim mesma.

Ao atingir a maioridade, eu achava que seria feliz quando minha banda gravasse o primeiro trabalho, quando eu começasse a sentar nas cadeiras da universidade.

Duas semanas depois de chegar aos 19, eu criei a página Linhas de Linhares no Facebook. Nos seis meses seguintes ela tinha alcançado somente 91 curtidas. E eu tinha certeza, de alguma forma, de que seria feliz no dia em que eu conseguisse mil leitores.

Um mês antes de fazer 20, eu pus na minha cabeça a ideia de lançar um livro: e eu pensava que, quando esse sonho se tornasse mais palpável, eu seria, de fato, feliz.

 

Bom… Eu ainda não gravei nenhum trabalho, mas eu tenho duas bandas. Toco contrabaixo em ambas — e não mais violão.
Eu cheguei à metade da faculdade.
Meu livro está prestes a ser lançado: o sonho deixou de ser só projeto.
Até o momento, mais de 46 mil pessoas acompanham meus textos.

 

Agora eu quero gravar com meus dois projetos, e eu sei que preciso pegar o diploma de jornalista; não vejo a hora de ter meu livro em mãos e, quem sabe, chegar às cem mil curtidas. Só que agora eu sei, sr. Falabella, realmente a vida não é uma coisa só.
Eu achava que felicidade era o destino, mas na verdade é a trajetória.

E eu descobri que não sou feliz apenas depois de fazer um bom show, de perceber que o número de leitores aumentou, de saber que meus textos vão sair da tela do computador.
Eu vivo é um pedacinho de alegria a cada dia.

 

Felicidade é chegar na sala de aula e ser recebida com carinho; é ligar o celular e ver que alguém de outro estado se lembrou de você e te desejou “bom dia”; é ter alguém pra ficar junto no escuro de um cinema. Eu sou feliz toda vez que eu abro a internet e percebo que pessoas que nunca me viram na vida se sentem decifradas por mim; sempre que eu sinto que alguém não está simplesmente colocando seus braços em volta de mim: mas me abraçando como se aquela fosse a última coisa que ela faria.

É acordar no meio da noite de um sonho ruim e perceber que aquilo foi só truque da imaginação… e que tudo continua bem, exatamente como você deixou; é estar ouvindo rádio e notar que o acaso te presenteou com a música que marcou história. É aquele momento, aquele exato momento, em que a pessoa que ocupa sua mente diz com versos de Lulu que você faz tão bem a ela

 

O que é felicidade pra você? É ter dinheiro, é ser saudável? É amar, ser amado?
Pra mim também.

Só que eu parei de cair na ilusão de que quando eu alcançar meus grandes ideais de realização eu me sentirei totalmente plena, a ponto de não desejar mais nada da vida.

Sabe… Sempre vai faltar alguma coisa. Eu não me engano como antes, aumento essa convicção toda vez que olho pra trás.
Eu continuo perseguindo objetivos; a diferença é que eu parei de mentir pra mim: eu agora assumo que sempre vou querer mais.

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