Debaixo de sete chaves

Leia escutando:

 

Quando me mudei pro Rio, deixei em terras baianas minha única amiga na época.

Eu sabia que por aqui acabaria encontrando gente com quem compartilhar minhas histórias e para telefonar no fim de semana — naquele tempo ainda se faziam ligações.

Mas nenhuma dessas pessoas seria ela.

Isso me quebrava.

Só que decidi abrir meu mundo. Eu me permiti conhecer outras mentes e habitar diversos corações — e deixar que entrassem, também, no meu. Percebi que eu não precisava procurar alguém para substitui-la, e mais: que a nossa amizade não tinha pegado um avião só de ida pra longe como eu.

Conforme fui fazendo amigos e, naturalmente, a vida me foi direcionando para novos caminhos fora da convivência assídua com eles, compreendi o que levei anos: a amizade legítima fica. E é claro que os versos de Milton e as linhas da Martha Medeiros já vêm ressaltando há muito a importância dessas figuras tão raras e essenciais.

Mas foi só quando senti na pele, quando realmente entendi que pessoas, por serem diferentes, geram relações de amizade também diferentes, que consegui conceber seu verdadeiro sentido. Tenho amigos com os quais troco mensagens o dia todo, outros com quem só falo quando me vejo sem saída, e há quem me procure para ir ao bar da esquina rir da vida — e até daquilo que se julga triste.

Na real, não existe conceito de amizade tangível nem inalterável. O entorno a gente descobre e harmoniza com a convivência; a regra de ouro é simples e clara: reciprocidade, e teremos sempre os melhores amigos — que tanto estarão aqui do lado esquerdo do peito, como te preencherão por completo em cada situação em que precisar deles.

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