Já fez as pazes com o passado hoje?

O tempo não fez o erro ser menos errado, não excluiu nossas faltas e nem minimizou cada culpa. Mas, sim, reduziu o peso sobre os ombros, levou a autotortura para o fundo do armário. E que se diga que se martirizar seja involuntário e inconsciente — e de fato é. Até que uma hora dessas o jardim ganha cor nova e os monstros deixam de assustar.

Vejo tanta gente bradando que não se arrepende de nada, porque, dizem, antes fazer aquilo que se tem vontade do que perder qualquer chance que te surge — ou que pareceu que surgiu. Sorte de quem assume ser de carne, osso e um punhado de arrependimentos. O remorso é o que às vezes dignifica.

A autopunição por ter desviado tão rápida e friamente os olhos da senhora com roupas encardidas e mãos pretas pedindo qualquer moeda na estação de trem. A culpa que vem logo após a revelação de um segredo que sequer era teu. A lamentação por não ter aprendido a tempo o que significava ser resignado e, por isso, ter confundido um ato de coragem com qualquer demonstração de estupidez.

Fazer as pazes com o passado é muito mais do que encaixotar os arrependimentos e escondê-los em algum lugar quase inacessível. Nesse ofício de transcrever o que se passa aqui dentro, percebi tanto a beleza de se jogar em cada sentimento bom quanto a de conviver bem com os fantasmas: se for pra ser amor, que seja; se for pra doer, que doa.

Amando e fazendo sorrir, que então dure.

Se for pra se arrepender… que o faça, e, por fim, aprenda.

Comentários