O beijo que não pertence

É tudo a respeito dessa vida

que grita aqui no peito

querendo ser vivida – e compartilhada.

É sobre a inquietação que pede pra ser tranquilizada por mais que o breve instante.

Quando o momento não me tem bastado,

o colo não é de todo aconchego,

e a culpa traz aquele nó que já me é familiar.

 

Quero o beijo que não pertence.

Um bom dia um pouco mais quente.

Deitar nesse teu peito-morada

e falar, com todas as letras,

aquilo que só digo sibilando por entre os cantos

– da boca e dos cômodos:

nas portas dos quartos,

da cozinha

escura

e da sala

clara

da casa cheia.

 

Inundei meu coração frágil.

Tão pesado

que força o tórax que lhe chama a atenção.

Tenro e cansado,

esperando o abraço

que abriga dois corpos nus de reservas,

que leva ao chão cada amarra,

armaduras mais pesadas que roupas.

 

Não é sobre a sua indiferença,

nossa possível distância;

eu não tenho a quem condenar.

Não é desculpa barata de quem quer ir embora e na falta de argumento se diz razão do problema.

 

Acordar da fantasia e perceber a vida assim

– tal qual ela é.

Dormir no êxtase da ilusão.

Abrir os olhos com o tapa da realidade.

 

Ou

cobrir-se de lençóis

e do edredom que esmaga sonhos.

Deixar que venha o sono.

E, esquecendo-se do choro no escuro,

despertar com a esperança

de uma hora dessas

ver seu rosto bem de perto

depois de uma noite de descanso

que deixe leves corpo e consciência

e que se faça certeza e regra

viver sob teu encanto.

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