Aquele que não entendia nada

Para ouvir enquanto lê:

 

Rafael escrevia sobre amor.
Era poeta.
Embora não se chamasse assim.

Era poeta não porque fazia rimas,
versos românticos
ou
palavras sensíveis.

Seus textos eram sua extensão.
As letras saíam pelas pontas dos dedos sem filtros.

A Laura bateu a porta na cara do Rafael.
Disse que ele falava tanto de amor
e não sabia nada do assunto.

Que ele fazia tudo errado.

O Rafael voltou pra casa sem nem se lembrar do motivo da discussão.

A constatação da Laura é que bateu fundo.

Ele decidiu que ia aprender sobre amor antes de procurá-la de novo.
Devorou livros, leu textos na internet, conversou com gente diferente.

A Laura não apareceu.
Ela ainda achava que o Rafael não sabia nada de amor.

E ele continuava sem coragem para encará-la novamente.

Ela intimidava.

Deviam ser aqueles olhos…
Ele amava os olhos.
Dizia que até quando fechados diziam lá suas verdades.

O Rafael deitou na cama e ficou encarando o teto.
As pessoas ficam mais sensíveis quando a noite chega.

Pegou o celular da mesinha, apertou os olhos contra a claridade da tela.
Passou pelas últimas notícias.
Viu uma postagem da Laura avisando que estava de mudança para outro estado.

Ela não tinha contado pro Rafael
porque ele não entendia nada de amor, mesmo.

E, naquele momento, ele entendeu.

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