Parte do todo

Outro dia voltei em silêncio observando as pessoas no ônibus.
Tinha um grupo em pé na minha frente – dois rapazes e uma moça.
Eles falavam sobre a insatisfação com seus cursos.
Um tinha acabado de entrar no Direito; só que queria Nutrição.
A menina não sabia o que fazer da vida:
Era dessas que entrou por necessidade na formalidade do meio acadêmico
querendo se jogar no mundo arriscado da bela arte.
Tinha outro cara no banco da janela escutando música.
E, naquele momento, eu quis tanto saber o som que saía daqueles fones…
Sabe, o desconhecido me seduz.
Tinha um homem de cabelo branco brigando com o touchscreen.
Ele finalmente conseguiu desbloquear a tela.
Só queria avisar pro neto que tava perto de casa.
“Querido, tô chegando…”

O acaso colocou 40 pessoas compartilhando aquele mesmo momento.
Gosto de tentar imaginar os porquês
– mesmo sabendo que, lá no fundo, não existe nenhuma razão mesmo.
É que o destino, quando acreditado, deixa a vida ainda mais fascinante.

Eu tinha que estar ali por alguma coisa.

ônibus clandestino
estudante insatisfeito
amor incondicional de avô
curiosidade sobre gosto alheio

Que importância eu tenho
dentro
desse Rio tão grande
afinal?
É que às vezes se sentir pequeno
é até encantador.
sou só
parte
do todo.

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