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Dai a César

Eu tenho um amigo compositor. Toda música que ele termina de escrever é escondida na gaveta e somente lida no mínimo dois dias depois. Assim, ele acredita estar a uma distância segura das sensações que o invadem enquanto faz suas letras. Segundo esse meu amigo, esperar esse tempo para ocupar o lugar de observador em vez de tentar analisar suas obras recém-feitas ainda tomado pela emoção faz apurar seu senso crítico.

Eu também componho e aprendi a levar isso inclusive para outras tarefas da vida moderna. Só que descobri que muito mais do que escolher terminar tarefas de faculdade com certa antecedência para ter tempo de analisá-las de longe, eu me torno espectadora do meu próprio passado: e nem sempre isso reflete a realidade.

Vejo pessoas saudosas a respeito de relacionamentos frustrados e que já estavam fadados ao fim; ou colegas que decidiram maldizer seus antigos empregos que lhes trouxeram experiência e sustento por tanto tempo só por finalmente terem criado a coragem de virar as coisas pros seus chefes – ou por terem simplesmente sido demitidos mesmo.

 

A mesma visão de fora que tenho dos outros e que me dá conforto e suposta isenção para julgar-lhes suas condutas, positiva e negativamente, possuo de mim mesma olhando pra trás. Nosso eu-passado sofre de autocríticas porque a gente acha que com a cabeça fria tem maior discernimento das coisas – e pode até ter, mesmo. Mas se esperar um tempo até que nos julguemos capazes de fazer análises exatas sobre nossos problemas fosse realmente garantia de vereditos isentos, não estaríamos cometendo os mesmos erros em nossas sentenças, seja criticando duramente pessoas que um dia foram importantes para nós e por qualquer motivo seguiram outro caminho, ou lamentando términos de relações já dilaceradas.

 

Não é tão simples como escrever uma música e, então, guardá-la.

Demorei três dias para revisar e publicar este texto.

Na vida a gente ainda vai partir cheio das incertezas.

A quem fez por merecer, as honras. Aos que nos fizeram doer, a distância.

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